Thursday, October 13, 2011

Luli Radfahrer: "Os anarquistas estão chegando os anarquistas"

Transcrevo aqui artigo de Luli Radfahrer, publicado na Folha de São Paulo, sobre o uso que os ativistas sociais de Nova York estão fazendo dos equipamentos de vídeo portátil e da internet para informar ao mundo "sem intermediários" sobre os acontecimentos no seu acampamento numa praça da cidade, aonde se manifestam em protesto contra o sistema financeiro e a crise econômica daquele país.

Eu creio que este movimento merece ser acompanhado por jornalistas e estudiosos do Jornalismo e da Comunicação Social. Não tenho bola de cristal para prever o futuro. Mas acho que esta situação tem potencial para revelar elementos que poderão nos dar pistas sobre o futuro do Jornalismo e da indústria do Jornalismo.

O fato de que a grande imprensa norte-americana, de tradição democrática, está tentando ignorar os movimentos que estão brotando espontaneamente pelo país a partir de NY, indica que existe uma divisão grave naquele país. Os grandes conglomerados financeiros e corporativos, o capital especulador e o sistema político parecem ter definitivamente rompido qualquer laço com a sociedade americana. Esta, parece estar mais uma vez se levantando e exigindo liberdade e respeito pela cidadania. Exigindo respeito pelos direitos básicos de vida, idéia em torno da qual aquela nação se constituiu a mais de 200 anos, oferecendo ao mundo um paradigma importante de organização política e proposta de vida em comum.

Não sabemos o que vai acontecer. Mas sugiro observar o comportamento da grande imorensa, ligada às corporações que são responáveis pela crise econômica norte-americana e que sufoca boa parte da população daquela nação. E também observar o sistema de informação que os manifestantes montaram utilizando câmeras portáveis, smartphones, notebooks, Pads e mais uma série de recursos disponíveis na internet.

O fato importante a ser observado e analisado, em resumo é: se a grande imprensa norte-americana está ignorando um fato, os manifestantes estão criando outra imprensa. Talvez sim ou talvez não, mas talvez esteja ali ganhando notoriedade perante todo o mundo uma nova imprensa: a imprensa cidadã do Século XXI!

Uma imprensa feita não por jornalistas funcionários de uma corporação. Mas feita por cidadãos independentes, em rede. E fica a pergunta: que tipo de organização (empresarial?) de notícias surgirá (ou não) após estes espisódios - que, repito, não sei como terminarão.

Leiam o texto do Luli Radfahrer, transcrito abaixo, acompanhem os acontecimentos e reflitam:


Os anarquistas estão chegando os anarquistas
Luli Radfahrer

Fonte: http://www1.folha.uol.com.br/colunas/luliradfahrer/988991-os-anarquistas-estao-chegando-os-anarquistas.shtml (12/10/2011) - 07h00

Para ser lido sob o tom sombrio-apoteótico-inevitável desta versão da música do Jorge Ben

Eles são discretos e silenciosos. Ninguém os viu chegar, não se sabe que cara têm, como se organizam, de onde tiram financiamento e apoio para sua estrutura. No entanto, moram bem perto dos homens. Não comutam, não atravessam fronteiras ou divisas muradas. Não voltam para seus guetos aonde podem ser trancafiados, isolados, esquecidos. Sua casa se camufla na paisagem de todas as outras casas. Podem estar, inclusive, perto de você.

Invisíveis, misturam-se à estrutura que os acolhe e nutre, mas nunca levantam a voz. Como não se dá conta de sua existência, passam por burocratas enquanto executam regras herméticas. Suas atividades raramente são compreendidas, quanto mais monitoradas. Por isso estão serenos e seguros enquanto escolhem com carinho a hora e o tempo do seu precioso trabalho.

No Bahrein, Iêmen, Egito e Estados Unidos os novos ativistas não são aqueles que protestam ou esbravejam frente às câmaras, mas a rede internacional de notícias que os capta e transmite, ao vivo, via Livestream e tantos outros canais. Perto dela, Al Jazeera é reacionária. CNN e BBC, alienadas. Reuters e AFP, esnobes. Manifestantes e polícia, atores. Repórteres sem fronteiras, idealistas. Todos amadores.

Os grandes revolucionários dos países da Primavera Árabe e dos movimentos recentes em Wall Street não dão entrevistas, não ocupam espaço frente às câmaras beijando crianças na Líbia como Sean Penn nem têm delírios de onipotência como Julien Assange. Nada disso. São pacientes, assíduos e perseverantes. E discretos, acima de qualquer coisa. Praticam o que, por falta de um nome adequado, é chamado de Hacktivismo.

Eles não ameaçam nem impressionam ninguém. Seu biotipo não causa inveja em um PitBoy, suas armas não assustam um Zé Pequeno. Mas não se deixe enganar: eles são muito fortes e poderosos. Usam sistemas de encriptação como o Tor para contornar milhares de capangas fortemente armados das grandes muralhas de proteção e mostrar ao mundo o mundo que deve ser mostrado. Em especial para quem se cansou do simulacro azul das pílulas, de Adderall a Viagra, passando por Matrix.

Nunca vi uma rebelião de inteligência como esta. Ao contrário do que falou Gil Scott Heron, ela é televisada. Mas por um canal diferente. Você poderá ficar em casa, poderá plugar-se na hora em que quiser. Os ativistas de Nova York garantem público e repercussão para reforçar a moral de cidades em que o movimento ainda é pequeno demais para ser coibido ou cooptado.

A revolução pode ser acompanhada do sofá, tomando cerveja, mas não será patrocinada. Ganhará as telas do YouTube e Vimeo até que a TV não possa mais ignorá-la ou ridicularizá-la. Ela não tem sex appeal, não emagrece, não vende, não aparecerá na Caras nem na Angélica.

Nem na grande mídia, pelo que parece. Desde que a Internet permitiu o acesso direto, meus jornais matinais são algumas agências de notícias. Nelas não há palavra sobre o movimento americano. Claro que não esperaria vê-lo na Bloomberg do prefeito de Nova York, mas o barulho de fundo deve incomodar a moça que fala da previsão do tempo.

Tempo este que é, no sentido Chinês, muito interessante. Praga sutil e discreta, camuflada em um inocente provérbio, se refere a turbulências imprevistas, de difícil controle, que perturbam a normalidade que deveria acompanhar o momento em que todos os desejos se transformam em realidade. Em vez dela, se vê no horizonte que os anarquistas estão chegando. Estão chegando os anarquistas.

Muitos regimes fechados, práticos em controlar o acesso à informação, devem abanar a cabeça, desconsolados com a ironia da situação. Pois justo os terríveis Estados Unidos da América, especialistas em contra-inteligência e propaganda ideológica, não conseguem lidar com uma Tiananmenzinha dessas? Que mal exemplo se dá para o Egito desse jeito.

Mas não se engane: há muita estratégia nesta ação aparentemente desesperada de uma minoria de 99%, a começar por seus slogans, websites e cinegrafistas. Pobres inocentes, definidos no Twitter com a sutileza literária de quem sofre pela morte de Johnny Cash, Steve Jobs e Bob Hope e se diz sem Cash (dinheiro), Jobs (emprego) e Hope (esperança, palavrinha também usada pela campanha do Obama). É muita sutileza para um endividado, não?

Pois se até a Al-Qaeda aprendeu a usar a mídia, tenha certeza que os estrategistas silenciosos sabem o que fazem quando organizam desde a captação, a conversão, a repercussão e a distribuição. Trazem consigo iPhones, câmeras de vídeo, tablets Android. Todos bem iluminados. E evitam qualquer relação com pessoas de temperamento sórdido.

Há um grande mérito em suas queixas e um enorme aprendizado em sua metodologia. A única pergunta que ainda não foi televisada é sua real proposta de mudar o sistema sem quebrá-lo. Incendiar a Bastilha, bem sabem muitos descamisados que saíram de universidades, não é tão difícil. O problema é evitar o terror que sucede o ancien régime.


Luli Radfahrer é Ph.D. em Comunicação Digital pela ECA (Escola de Comunicações e Artes) da USP, onde é professor há 18 anos. Trabalha com internet desde 1994 e já foi diretor de algumas das maiores agências de publicidade do país. Hoje é consultor em inovação digital, com clientes no Brasil, Estados Unidos, Europa e Oriente Médio. Mantém um blog com seu nome www.luli.com.br, em que discute e analisa as principais tendências da tecnologia. Escreve quinzenalmente no caderno Tec da Folha e na Folha.com.

E-mail: luli@luli.com.br

Thursday, May 12, 2011

Livro: Mídias Sociais e as Eleições de 2010 [no Brasil]

Coletânea de textos de diversos autores com análises do uso das redes sociais e ferramentas da internet na campanha eleitoral de 2010 no Brasil.

Tuesday, May 10, 2011

Empresa Brasileira lança Web Série para promover vinho

A Vinícola Aurora, fabricante do vinho Marcus James utiliza o recurso da Web série "Certo Que Sim", para divulgar seu produto.

Ela pode ser visualizada no site http://www.certoquesim.com.br

Este recurso é uma opção válida para empresas, uma vez que os custos de produção de uma pequena série em vídeo não são tão altos. A parte cara da publicidade em vídeo era a veiculação em TV aberta ou a cabo. As redes sociais de divulgação de vídeo, como o Youtube ou o Vimeo reduziram a zero o custo de levar o vídeo ao público. Claro que um esforço de assessoria de imprensa, e-mail marketing, twitter vão auxiliar a trazer telespectadores para a web série. E isto tem custo. Mas nao se compara aos custos de TV tradicional.

A adoção da novidade depende mais agora da flexibilidade e espírito inovador dos publicitários e gerentes de marketing das empresas.

Thursday, April 14, 2011

O que é Mashup?

Uma boa matéria explica de forma clara o que é, afinal um Mashup:

Thursday, March 3, 2011

New York Times e o Jornalismo Cidadão

O New York Times convidou seus leitores a colaborar com a editoria de Turismo, gravando editando e enviando um vídeo de apresentação das atrações turísticas da cidade de cada um.

http://intransit.blogs.nytimes.com/2010/09/15/show-us-your-city/?nl=travel&emc=tdb2

O jornal se comprometeu em avaliar o material e publicar em seu site. E coloca dois ótimos exemplos. Um passeio com degustação gratuita de vinhos em Nova Yorque e uma volta por Boulder, no Colorado. Dois leitores com ótima presença no vídeo.

O jornal inclusive colocou um rápido tutorial para orientar pessoas leigas sobre como gravar e editar (de forma simples) um vídeo caseiro. O tutorial é bem bom.

Fica para os meus alunos o tema para a reflexão:

- Jornalismo cidadão: como interagir com o leitor? Como cobrir pautas com a colaboração do leitor? Como filtrar e garantir a veracidade e qualidade da informação enviada pelo leitor?

Discutam em grupo e entreguem as respostas por escrito, após debate com toda a turma.

Saturday, August 21, 2010

A história do Huffington Post

Matéria do Globo, reproduzida no Observatório de Imprensa, mostra a recente, mas instigante história do Huffington Post um jornal Online que se tornou um dos mais importantes cases de jornalismo cidadão. Hoje é mais acessado na internet do que o New York Times. O Globo entrevistou a criadora do Post.

A observação mais importante do texto é a declaração de que "...nos jornais tradicionais o ciclo da notícia termina quando ela é publicada. No Huffington ele começa quando ela é publicada". A visão jornalística é diferente. O Post trabalha com interação, com comunicação em redes. Com dezemnas de blogueiros. E com moderação dos debates.

Eis o link para o texto. Recomendo fortemente a leitura.

Wednesday, July 28, 2010

Wikileaks. O jornalismo do século XXI?

Wiki Leaks:

Subversão ou o jornalismo do século XXI?

Interessante matéria publicada no Blog do Luis Nassif (publicada originalmente no Valor Econômico), que relata a vida de um ativista australiano Julian Assange, criador do Wikileaks (www.wikileaks.org) responsável pela divulgação de segredos militares americanos no afeganistão - esquadrões da morte e outras coisas que não deveriam chegar à opinião pública, na visão do pentágono.

Transparência é a palavra de ordem de Julian Assange. leia a matéria e pense a respeito: ele é um hacker? Fora-da-lei? Jornalista? Ativista da paz? É a circulaão da informação no século XXI. A tomada de consciência?


Do Valor

O libertário da nova informação

Fonte: Valor Econômico (28/7/2010)

Por Rodrigo Uchoa, de São Paulo
28/07/2010

Julian Assange tinha vinte e poucos anos e os cabelos castanhos escuros quando se envolveu numa dura batalha com a ex-mulher pela guarda do filho dos dois. Um problema pessoal que acabou sendo transformado na primeira grande experiência do então jovem programador australiano contra a burocracia e as grandes instituições pouco transparentes. E a primeira experiência também de um ativismo que iria desembocar anos depois no WikiLeaks, o site classificado de "criminoso" por uns e de "heroico" por outros.

Revoltado com a falta de transparência da agência australiana de proteção aos menores, que não havia dado ouvidos a suas reclamações em relação à ex-mulher, Assange criou junto com sua mãe uma organização de pais. Passou a gravar escondido todas as audiências e reuniões com as autoridades. Na Justiça, apelou para o Ato de Liberdade de Informação da Austrália para conseguir acesso aos autos que deram base à decisão da agência - nem a isso os pais tinham direito, pois a burocracia tratava os autos como secretos até mesmo para os envolvidos. E, acima de tudo, começou a distribuir folhetos para assistentes sociais, incentivando-os a vazar informações da agência de proteção a menores.

O caso em si acabou em um acordo quanto à custódia do garoto, mas marcou Assange profundamente de duas maneiras. De um lado, parece ter sido a semente para o ativismo contra a "conspiração" das grandes instituições; por outro lado, parece ter deixado marcas físicas mesmo: segundo a mãe de Assange, a adrenalina e o desgaste da campanha foram tamanhos que ela própria sofreu de um estresse pós-traumático e seu filho ficou de cabelos brancos - o visual pelo qual é amplamente reconhecido agora.


WikiLeaks ( www.wikileaks.org ) dominou os noticiários nos últimos dias com a divulgação de uma série de documentos oficiais americanos sobre as operações de guerra no Afeganistão. Os documentos dão conta de uma situação bem menos sob controle do que a Casa Branca vem querendo fazer parecer. Colocam também em dúvida o comprometimento do Paquistão, principal aliado dos EUA na região, em relação ao combate à milícia islâmica do Talibã. Alguns analistas chegaram a comparar a divulgação atual ao vazamento de documentos oficiais durante a Guerra do Vietnã, no início dos anos 70, num caso que também colocou em dúvida os rumos daquele conflito.
E a figura de cabelos brancos de Julian Assange foi trazida ao centro do furacão. O Pentágono diz que sua atuação coloca em risco a vida dos soldados no teatro de operações do Afeganistão e que a divulgação de documentos secretos foi criminosa. Assange disse que as ações criminosas vêm na verdade dos americanos. Ele deu como exemplo as operações da chamada Força-Tarefa 373 - que qualificou como "um esquadrão da morte" das forças especiais americanas -, encarregado de assassinar uma série de pessoas incluídas em uma lista arbitrária. "Mataram pelo menos sete crianças e outros inocentes", denunciou ele. E disse que algumas pessoas eram incluídas nessa lista "por recomendação de governos locais ou de outras autoridades com poucas provas e sem supervisão judicial".

Não é a primeira vez que o australiano se envolve em polêmicas por divulgar informações secretas. O WikiLeaks já desagradou bancos suíços, defensores da cientologia, oligarcas russos e ditadores africanos.

Para entender como ele chegou ao olho do furacão, vale observar a trajetória de Assange, que envolve bem mais do que sua batalha contra a agência de proteção a menores.

Nascido em 1971, numa pequena cidade da costa nordeste da Austrália, ainda bem pequeno sua família iniciou uma vida itinerante. Não teve contato com o pai, e sua mãe se mudou de cidade em cidade após alguns relacionamentos com diretores de teatro e músicos. Ela acreditava que as escolas tradicionais serviam apenas para tolher a criatividade das pessoas e, por isso, fez o menino estudar em casa - mesmo que esporadicamente ele fosse a alguma escola. O próprio Assange diz que passou por quase 40 escolas e, mais tarde, por pelo menos seis faculdades.

Na adolescência, ele se encantou pelos computadores de uma loja do outro lado da rua onde morava. Em pouco tempo, aprendeu a escrever programas e, principalmente, a quebrar seus códigos. Talvez mais marcante do que seu primeiro computador tenha sido seu primeiro modem. Adotou o codinome de Mendax, retirado das odes de Horácio - "splendide mendax" (esplendorosamente falso, enganador para um bom motivo).

Mas eram necessários mais desafios para o jovem hacker. Ele se juntou a outros companheiros para formar um grupo chamado de Subversivos Internacionais. Os alvos se sucederam em diversos continentes, inclusive o alvo dos alvos para os hackers da época: o Departamento de Defesa dos EUA. Entraram furtivamente em todos os sistemas de computadores que quiseram.

Mas foi aí também que apareceram os primeiros problemas com as autoridades: a polícia australiana apreendeu seu computador numa investigação sobre o furto de US$ 5 mil do Citibank. No fim das contas, ele não foi indiciado e teve seus equipamentos devolvidos. O próprio Assange descreveu o evento mais como um susto. Afirmou que não teve nenhum envolvimento com desvio de dinheiro e que seguia à risca as regras de ouro dos hackers nostálgicos: "Não danifique os sistemas que você invade; não mude dados; e, acima disso, compartilhe sempre as informações que conseguir".

Passou então por uma fase bem mais tranquila. Apaixonou-se, casou-se com apenas 18 anos e teve um filho.

Pouco depois, entretanto, os Subversivos Internacionais foram pegos por uma investigação da Polícia Federal australiana, após terem invadido os sistemas da canadense Nortel. Assange passou apertado e achou que poderia mesmo ir para a cadeia. E, para piorar, foi mais ou menos na mesma época em que se viu envolvido pelo caso de custódia com a já então ex-mulher. Apesar dessa conjunção de problemas, do medo de ir para a cadeia, a Justiça australiana apenas lhe aplicou uma multa.

A vida seguiu em frente e o não tão jovem Assange foi estudar física na Universidade de Melbourne. Não concluiu o curso e sua decepção com o que chamou de "conformismo" da academia foi imensa.

Partiu então para um projeto que vinha maturando havia algum tempo: o WikiLeaks.

A base intelectual do WikiLeaks pode ser identificada num manifesto escrito por ele que pregava a luta contra os segredos e conspirações "em detrimento da população". Não é uma questão de direita ou esquerda, de liberalismo ou socialismo. A luta é do indivíduo contra as acachapantes instituições criadas pelas sociedades, formadas por funcionários que não têm o bem comum em vista, e sim a perpetuação do próprio sistema, envolto em segredo e em cada vez mais burocracia.

"Acreditamos que a transparência em atividades governamentais leva à redução da corrupção e ao fortalecimento da democracia", afirma o WikiLeaks em sua declaração de objetivos.

O modo como Assange iniciou a formatação do WikiLeaks também mostra um padrão que acabou sendo seguido por ele daí adiante: em 2006, começou a trabalhar como um louco, primeiramente sozinho, mas depois foi chamando quem quisesse colaborar para o desenvolvimento dos sistemas do site e dos projetos.

Assim, a partir de 2007, o site se tornou uma experiência descentralizada, do ponto de vista técnico. Não há um escritório central, onde um diretor possa ser encontrado atrás de uma mesa - o site é feito onde Assange está, seja lá qual for esse lugar.

Dissidentes chineses, ativistas da Holanda, provedores suecos, matemáticos e jornalistas de todo o mundo passaram a colaborar na checagem dos dados recebidos e, muitas vezes também, abrigando Assange em suas constantes movimentações.

Isso contribuiu para a imagem heroica do "globetrotter" em constante fuga.

O lado de constante fuga é algo identificado por muitos de seus colaboradores. Assange diz que teme estar sendo perseguido por onde anda e, por isso, carrega pouca coisa consigo - meias, cuecas e umas poucas camisas -, o que lhe daria maior liberdade de ir e vir.

Mas isso cria um clima de paranoia também entre as pessoas mais próximas.

Assange conta que uma vez ficou meses abrigado na casa de uma colaboradora, temendo estar sendo perseguido por espiões americanos. O clima ficou tão pesado, disse ele, que ela saiu de casa e não mais voltou até que ele fosse embora.

Desde o começo do ano, ele não viaja aos Estados Unidos, temendo ser preso pela divulgação das imagens de video de um helicóptero militar americano em ação no Iraque, num incidente em que matou dois funcionários da agência de notícias Reuters.

Mas o modelo de divulgação do site também se aprimorou com o tempo e passou a contar não apenas com colaboradores esparsos, ativistas interessados em ajudar apenas. Agora, atrai grandes grupos de mídia. O "New York Times" e o britânico "The Guardian", assim como a revista alemã "Der Spiegel" receberam com antecedência de quase um mês os relatórios sobre os documentos do conflito afegão, que estavam em formatos como KML, CSV e SQl.

A intenção era que eles tivessem tempo de analisá-los, checá-los e apresentá-los de forma mais atraente e legível aos leitores.

Isso seria necessário para que as informações importantes não ficassem simplesmente soterradas pela enorme quantidade de dados.

Não eram como documentos já divulgados, que diziam tudo por si mesmos, como o manual da igreja da Cientologia - popular na Califórnia entre alguns artistas de cinema -, o livro de normas de conduta da prisão americana de Guantánamo ou a relação dos afiliados ao Partido Nacional Britânico, de extrema-direita. Era preciso uma edição.

A ideia de editar havia sido colocada em prática no episódio da divulgação do video do helicóptero no Iraque. Assange passou dias dentro de uma casa em Reykjavík, capital da Islândia, decodificando e escolhendo cenas que mostrassem continuidade de fatos. O video pode ser visto em qualquer busca rápida no You Tube e continua causando impacto.

Alguns críticos do WikiLeaks dizem que o site já vem passando por uma "institucionalização" por causa dessa aproximação com a grande imprensa, o que lhe tiraria o caráter libertário e poderia colocar freios em seus próximos projetos.

Assange defende essa aproximação dizendo que consegue maior divulgação sem comprometer a identidade daqueles que fornecem os documentos, já que a sua rede de colaboradores em todo o mundo continua intacta.

Outros dizem que o sistema de financiamento do site pode ser colocado em risco também por essa sua recente "institucionalização".

O financiamento vem sendo um desafio para Assange desde o lançamento do WikiLeaks.

Inicialmente, baseou-se nas pequenas contribuições dos colaboradores. Com a maior exposição, as doações se multiplicaram. Depois da divulgação do video do helicóptero que matou os jornalistas no Iraque, Assange recebeu cerca de US$ 200 mil em doações.

Ele comemorou dizendo que esse seria "um novo modelo de financiamento para o jornalismo".

O que quer que seja - novo modelo de divulgação de informação, novo modelo de financiamento do jornalismo -, o WikiLeaks é um modelo que deve ficar marcado pela personalidade de Julian Assange. Resta saber se ganhará vida própria.